Consegui esboçar um sorriso
Não saiu cá de dentro,
não foi sincero
Um sorriso falso e austero
Um esboço ténue, franzino
Sem gosto, nem sabor, nem caminho
Fios pendentes puxaram
os lábios a sorrir se obrigaram
retribuindo a uma piada
Mas no minuto subsequente
O rosto voltou a descair dormente
Assumiu o seu posto,
Sisudo e bem desenhado
Sombrio, severo, pesado
Numa calma aparente
Sem que o vício sorridente
Pudesse sequer se abeirar
E num falso sorrir posso até descobrir
Alguma capacidade de reacção
Não quero antecipar cenários
A vida segue em delírios arbitrários
Deixemos o esboço evoluir
Para sorrir ou não sorrir
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Era uma vez
Era uma vez um amor
Que morreu sem ter nascido
Que sucumbiu ao sucedido
Um amor que se revirou
Num sintoma abortivo
E perdeu-se nas entranhas
Da mãe natureza
Essa que distribui a beleza
Aos predestinados a amar
Era uma vez um amor
Estava tão bem acarinhado
Protegido, aconchegado
Um amor embrionário
Que tinha tudo para nascer
Forte e saudável
Era uma vez um amor
Que com amor foi concebido
Mas morreu sem ter nascido
Sem ter sido dado à luz
e mesmo sem existir
é um amor que ainda me seduz
Que morreu sem ter nascido
Que sucumbiu ao sucedido
Um amor que se revirou
Num sintoma abortivo
E perdeu-se nas entranhas
Da mãe natureza
Essa que distribui a beleza
Aos predestinados a amar
Era uma vez um amor
Estava tão bem acarinhado
Protegido, aconchegado
Um amor embrionário
Que tinha tudo para nascer
Forte e saudável
Era uma vez um amor
Que com amor foi concebido
Mas morreu sem ter nascido
Sem ter sido dado à luz
e mesmo sem existir
é um amor que ainda me seduz
O meu coração
Meu coração enclausurei
Numa caixa bonita e bem decorada
Está fechada, mil vezes acorrentada
A chave para longe foi arremessada
Para que não me sinta mais tentada
A abri-la para o libertar…
Vai ficar trancado por tempo indeterminado
Longe de sentimentos e atribulações
Parado, sossegado, sem batimentos ou emoções
E sei que conseguirei viver melhor sem coração
Se afinal dele nada mais espero
E ele nada mais faz tenções de me dar
A não ser arritmias e dissabores
Falsas alegrias, espinhosos amores
E se a cada momento ele me trai
Ora em passo desconcertado
Quando quero ser prudente
Ora em passo acertado
Quando quero o inconsequente
Por tudo isso será castigado
Por isto ficará em cativeiro
Não terei pena nem compaixão
Deste tonto coração
Numa caixa bonita e bem decorada
Está fechada, mil vezes acorrentada
A chave para longe foi arremessada
Para que não me sinta mais tentada
A abri-la para o libertar…
Vai ficar trancado por tempo indeterminado
Longe de sentimentos e atribulações
Parado, sossegado, sem batimentos ou emoções
E sei que conseguirei viver melhor sem coração
Se afinal dele nada mais espero
E ele nada mais faz tenções de me dar
A não ser arritmias e dissabores
Falsas alegrias, espinhosos amores
E se a cada momento ele me trai
Ora em passo desconcertado
Quando quero ser prudente
Ora em passo acertado
Quando quero o inconsequente
Por tudo isso será castigado
Por isto ficará em cativeiro
Não terei pena nem compaixão
Deste tonto coração
Criatividade
Dissolvo-me velozmente
Numa efervescência criativa
Já mal me consigo distinguir
Acho mesmo que deixei de existir
Para ela se emancipar
Dar um passo em frente e se revelar
Porque se eu insistisse em existir
Ela sentir-se-ia envergonhada
E nem mais uma palavra me faria escrever
Assim cedi-lhe todo o meu tempo
Dei-lhe todo o ânimo e incentivo
Embora nela continue emaranhada
Permanecendo, contudo, sossegada
Deixando-a discorrer sobre todos os temas
Deixando-a escrever freneticamente os poemas
Que a mim jamais seriam imputados
Deixando a criatividade bailar desprendida
Sem compromissos produtivos, imperativos
Ela pode ser quem quiser
Um pouco sacra ou libertina
Livre de escrever sem se importar
Se vai ferir ou melindrar
Sou apenas espectadora
Uma passiva observadora
Dominada e reprimida
Assistindo ao desfile de palavras
Pertença de outro alguém e de outra vida
Numa efervescência criativa
Já mal me consigo distinguir
Acho mesmo que deixei de existir
Para ela se emancipar
Dar um passo em frente e se revelar
Porque se eu insistisse em existir
Ela sentir-se-ia envergonhada
E nem mais uma palavra me faria escrever
Assim cedi-lhe todo o meu tempo
Dei-lhe todo o ânimo e incentivo
Embora nela continue emaranhada
Permanecendo, contudo, sossegada
Deixando-a discorrer sobre todos os temas
Deixando-a escrever freneticamente os poemas
Que a mim jamais seriam imputados
Deixando a criatividade bailar desprendida
Sem compromissos produtivos, imperativos
Ela pode ser quem quiser
Um pouco sacra ou libertina
Livre de escrever sem se importar
Se vai ferir ou melindrar
Sou apenas espectadora
Uma passiva observadora
Dominada e reprimida
Assistindo ao desfile de palavras
Pertença de outro alguém e de outra vida
O teu olhar
Tornou-se angustiante contemplar o teu olhar
Não esse que sempre trazias colado a ti, como lapa
Que não largavas nem por um punhado de promessas
Ou palavras ardilosas pejadas de embuste
Que reluzia na escuridão opaca das noites
E ofuscava a claridade alva do dia amanhecido
Mas o que agora revelas tão distante e obsessivo
Sem fulgor, sem lustre, apagado, cinzelado
Manchado de incerteza, vacilante, maculado,
um olhar vago e profanado, envolto em desmazelo
sem empenho em continuar, sem desvelo…
Poderei eu voltar a contemplar o teu olhar
Sem a angústia de mim se apoderar?
Não esse que sempre trazias colado a ti, como lapa
Que não largavas nem por um punhado de promessas
Ou palavras ardilosas pejadas de embuste
Que reluzia na escuridão opaca das noites
E ofuscava a claridade alva do dia amanhecido
Mas o que agora revelas tão distante e obsessivo
Sem fulgor, sem lustre, apagado, cinzelado
Manchado de incerteza, vacilante, maculado,
um olhar vago e profanado, envolto em desmazelo
sem empenho em continuar, sem desvelo…
Poderei eu voltar a contemplar o teu olhar
Sem a angústia de mim se apoderar?
Para ti
Entrego-te hoje esta saudade
Não a quero sentir, é toda tua…
Para que saibas do que falo
quando as lágrimas marejam os olhos
o coração palpita desorientado
Todas as atenções se concentram no relógio
que com insistência sempre se atrasa
e caminha em valsa lenta…
Entrego-te hoje esta consumição
para que entendas quando calo
e deixo o corpo falar por mim
Recebe-a de braços abertos
acolhe-a como familiar ausente
cuida para que quem a sente
jamais sinta o que eu senti...
Não a quero sentir, é toda tua…
Para que saibas do que falo
quando as lágrimas marejam os olhos
o coração palpita desorientado
Todas as atenções se concentram no relógio
que com insistência sempre se atrasa
e caminha em valsa lenta…
Entrego-te hoje esta consumição
para que entendas quando calo
e deixo o corpo falar por mim
Recebe-a de braços abertos
acolhe-a como familiar ausente
cuida para que quem a sente
jamais sinta o que eu senti...
Mar
Se na distância aparecesse a acalmia
era essa que escolhia
porque o mar revolto insiste
Em derrubar-me com a ondulação
Antevejo que não posso fugir
Estou tão presa a esse olhar
A essa forma de falar
Estou apaixonada por ti ó mar!
E se a paixão fosse recíproca
Se das tuas palavras um marulho
Um movimento de harmonia
Um gesto sem orgulho
Talvez conseguisse decifrar se és meu, ó mar
Ou se pertences a qualquer lugar…
era essa que escolhia
porque o mar revolto insiste
Em derrubar-me com a ondulação
Antevejo que não posso fugir
Estou tão presa a esse olhar
A essa forma de falar
Estou apaixonada por ti ó mar!
E se a paixão fosse recíproca
Se das tuas palavras um marulho
Um movimento de harmonia
Um gesto sem orgulho
Talvez conseguisse decifrar se és meu, ó mar
Ou se pertences a qualquer lugar…
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